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O Prazer Sagrado
Por Karina Lira

Ah, o prazer! Nada foi tão reprimido e perseguido! Nada é tão mal visto! Por quanto tempo a mulher só foi mãe e dona de casa, escrava do lar, do marido, dos filhos? Pensar em si própria? Não. Direito ao prazer? Nem pensar! Mesmo quando pôde trabalhar veio uma cobrança por padrões de comportamento e eficiência masculinos como se não houvesse uma casa, filhos e marido para dar conta.
E também o homem sofre a perda da sacralidade do prazer. Tem que se afirmar macho e agressivo desde cedo sob pena de ser agredido e considerado menos homem! Ainda tem tanto homem que acha que não pode chorar.

Dentro do pensamento machista do patriarcado só pode haver entre os gêneros relação de dominação que limita as possibilidades de prazer e a liberdade ambos. Os papéis a serem representados estão muito bem delimitados e não há lugar para qualquer criatividade ou inovação, sobretudo na cama. A cama, território do sexo para a procriação da família é território sagrado onde qualquer inovação já é desvio e, portanto tabu.

De sexo não se deve falar, nem sobre o aspecto do prazer, nem sobre qualquer possível dor. O sexo foi o aspecto da Deusa mais violentamente reprimido. Nada mais de sacralidade do prazer. Em seu lugar violência e medo. Porque para manter o poder é preciso reprimir o prazer, caso contrário viveríamos vidas livres e criativas, alegres como uma festa de Dioniso entremeada com um sarau de Apolo.
Reprimidos em nossa capacidade para o prazer somos mais obedientes e manipuláveis. Não é por acaso que se castram cavalos para a sela e bois para o arado. A castração gera obediência.

Freud já dizia que a neurose nasce da repressão sexual.Seu discípulo, Wilhelm Reich mostrou que o orgasmo tem a função de promover a saúde do organismo bem como a liberdade e equilíbrio emocionais. Também discípulo de Freud, Carl Gustav Jung afirmava que a mesma energia que nos move para sexualidade, chamada por Freud de libido, também é a responsável pelas capacidade criativa e o espiritual.

Se olharmos pela visão oriental não será diferente. Para a ayurvédica indiana, com sua teoria dos chakras, encontraremos a mesma idéia, pois é o chakra básico, localizado no períneo e responsável pela sexualidade e instintos de sobrevivência individual e coletivos, o chakra responsável por alimentar energeticamente todos os demais. Para o taoísmo chinês a saúde está em equilibrar as energias que recebemos da terra e dos céus e antes de tudo devemos cuidar de nossa base, pés, pernas e pélvis.

Mesmo no dia a dia é perceptível que há uma relação estreita entre satisfação sexual e pacifismo. Após uma boa noite de amor ficamos alegres e bem dispostos, cumprimentamos a todos e sorrimos até para estranhos. A falta de sexo, ao contrário, é capaz de provocar o pior do mau humor.

Em termos de sociedade, os indícios arqueológicos encontrados das sociedades matrifocais, pacíficas e sem grande desigualdade econômica, demonstram que ritos sexuais ocupavam papel importante. Já em sociedades focadas em deuses guerreiros, as quais costumam ser violentas e desiguais, a prática sexual costuma estar sob rígido controle.

Os tabus sexuais, o poder exclusivamente masculino e piramidal, e tantas outras estruturas de poder foram por bastante tempo justificadas como sendo parte da natureza humana. O mesmo tipo de ideologia que interpretava a pré-história como sendo apenas homens brutos com tacapes muitas vezes foi buscar no comportamento dos animais explicações para a violência entre humanos.

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