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Um pouco de História da Arte
Por Karina Lira

O culto da Deusa remonta à pré-história. Milhares de estatuetas femininas com ventres grávidos, seios e nádegas fartos foram encontrados em sítios arqueológicos do paleolítico e do neolítico. Datando de 35.000 a 5.000 anos antes da era cristã, e descobertas em vários locais da Europa, Ásia e África, essas estatuetas foram chamadas "Vênus Primitivas” pelos arqueólogos. Não há consenso entre eles sobre o seu significado embora a maioria as considere objetos religiosos.

Recentemente, com o surgimento dos movimentos femininos e os estudos de antropólogas e historiadoras começaram a ser vistas como parte de uma cultura orientada para a Deusa que existiu desde o paleolítico e cujos resquícios ainda se podem perceber através de estudos de mitologia comparada. Ao contrário do que se pensava, a relação entre os gêneros na pré-história pode não ter sido feita apenas de homens caçadores rudes com tacape na mão puxando suas mulheres pelos cabelos. A descoberta de algumas cidades neolíticas ainda bastante conservadas trouxe boas pistas do que a vida na pré-história pode ter sido.

Çatal Hüyük (cerca de 7.500 - 5.000 a. C) é uma das mais antigas. Mostra um estágio cultural refinado, com casas de tijolos crus nas quais se entrava pelo teto, possivelmente por uma escada de madeira. O trânsito entre as casas se fazia por cima destas, já que não havia ruas entre elas.Seus moradores dominavam a agricultura e o pastoreio e produziam cerâmica e artigos de obsidiana polida de grande qualidade. Os mortos eram enterrados dentro da própria casa, sob suas camas, em posição fetal (Possivelmente devolvidos à Mãe Terra para renascer). Os homens e as crianças em camas menores. Uma cama maior e mais perto do fogo para a mulher.Antes de enterrados os corpos eram deixados para serem descarnados pelos abutres, então os ossos eram recolhidos, vestidos e enterrados.

Grande número de santuários pequenos mostram imagens tanto de nascimentos quanto de morte, abutres se aproximando de velhos (a Deusa Abutre?), uma mulher dando à luz em um trono, seios nas paredes e cabeças de touro sob uma figura de pernas abertas. Parecem indícios claros de um culto à fertilidade e aos ciclos de vida, morte e vida. Não há indícios de violência ou pobreza, nenhum grande templo ou palácio. As casas tem tamanhos equivalentes indicando distribuição de poder e riqueza. Entre cento e cinqüenta pinturas que sobreviveram em Çatal Huyuk, não existe uma cena de conflito ou luta, ou de guerra ou tortura.

Mais recente, a civilização do vale do indo, com as prósperas cidades de Harappa e Mohenjo- Daro era ainda mais desenvolvida. Tinha casas feitas de tijolos de barro cozido, grandes e largas avenidas, escoamento de esgoto e canalização de água da chuva para todas as casas igualmente. Também não há palácios ou grandes templos, a única grande construção eram os banhos públicos. As fábricas de cerâmica ficavam longe das habitações demonstrando cuidado com a poluição da fumaça dos fornos. Aparenta ter tido uma estrutura de poder horizontal e não hierárquica piramidal. Foram encontradas imagens que poderiam ser da Deusa e do Deus de chifres. Muitas de suas estatuetas evocam posturas de yoga mostrando que essa ciência já era conhecida, mais especificamente tantra yoga, segundo André Van Lysebeth em seu livro Tantra, o culto da feminilidade. Assim como em Çatal Hüyük não há sinais de violência nas ruínas de Harappa e Mohenjo-Daro.

O fim tanto de Çatal-Huyuk quanto da civilização do vale do Indo é um mistério. Alguns atribuem a invasões de povos vindos do norte, outros a desastres ambientais. Certamente, porém, as invasões dos povos nômades e guerreiros e a imposição de sua cultura mantiveram esquecida por muito tempo a riqueza e os valores dessas civilizações.

A Deusa do Parto - Çatal Hüyük
A Deusa do Parto, encontrada em Çatal Hüyük
O fato de não haver indícios de morte violenta entre esses povos agricultores neolíticos nos permite pensar que as culturas orientadas para a Deusa eram pacíficas, assim como a ausência de indicativos de diferenças sociais acentuadas revelam o quão igualitárias elas eram.As sociedades que cultuavam a Deusa tinham por valor maior a vida e seus ciclos, e não a conquista como no caso do patriarcado. Embora tenham sido quase totalmente destruídas a ponto de sua existência ser ainda uma hipótese para alguns cientistas, seus valores e sabedoria foram em parte mesclados aos dos povos conquistadores e suas mitologias fundidas.

A Deusa tornou-se esposa do Deus patriarcal que é visto como senhor do Céu e das vitórias em batalha. Para cada mudança social os mitos sofrem alterações chegando ao ponto de o Divino Feminino ter sido completamente excluído da concepção religiosa oficial. Para o Cristianismo, por exemplo, não há Deusa, ao contrário o poder Feminino é considerado demoníaco! Tudo que a Deusa nos oferece para nossa sobrevivência e felicidade (e para o paganismo a felicidade é um valor importante) é considerado pecaminoso; o corpo, o sexo, o alimento, a alegria, o riso, o ócio, a criatividade, o conhecimento... Na visão do culto do Deus pai Céu tudo que é da Terra, ou seja, da Deusa é inferior e sujo devendo ser combatido, pois o corpo seria oposto e incompatível, inimigo mesmo do espírito!

Contudo a Deusa não pôde ser completamente eliminada. O culto a Maria foi introduzido nos locais em que o culto da Deusa e seus santuários se recusavam a morrer. Catedrais para Maria foram construídas em cima de antigos templos da Deusa. Justamente por não poder vencer o amor das pessoas pela Deusa e nem sua onipresença na psique humana foi preciso conciliar em certa medida. Apenas em certa medida porque, embora seja adorada quase como tal, Maria não é considerada Deusa e de seu culto foram excluídos a sexualidade, a agressividade, a força, a magia; atributos da Deusa e das mulheres fundamentais para o poder feminino.

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