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A Deusa
Por Karina Lira

A Deusa é a Terra que pisamos, os animais e plantas, a água que bebemos, o ar que respiramos, o fogo dos vulcões, os rios, as cores do arco-íris, o meu corpo, o seu corpo... A Deusa está em todas as coisas. Ela é Aquela que Canta na Natureza. A Deusa é a criadora primordial. A Deusa também é a Senhora da Lua. É cultuada em três aspectos: a Donzela, que corresponde à Lua Crescente e aos inícios, a Mãe representada na Lua Cheia que traz a plenitude e maturidade e a Anciã sábia, iniciadora e guardiã dos mistérios, simbolizada na Lua Minguante. A Deusa é a própria natureza e seus ciclos. Está em nós e além de nós. Ela tem dez mil nomes e várias faces, possui em Si todas as possibilidades.

A Deusa do Parto - Çatal Hüyük
A Deusa do Parto, encontrada em Çatal Hüyük
Mas porque Deusa, porque A chamamos Mãe e não Pai? A diferença entre considerar A Divina Consciência como Deusa ou Deus, Mãe ou Pai, não é tanto o sexo da Divindade em si, que no fundo abarca a ambos e ainda mais. A Divindade, em última instância é o Grande Mistério contendo em Si todas as possibilidades. Ela é incognoscível e, no entanto a representamos à nossa imagem e semelhança. A diferença é que quando A colocamos no lugar de nossa Mãe, nos fazemos íntimos Dela, buscamos seu colo, somos parte de Seu corpo, habitamos seu Útero, gozamos de seu prazer e sofremos com sua dor.

Quando chamamos a Divindade Pai, colocamo-la no lugar social do poder, de estabelecer regras e limites. Ela está fora e longe de nós, nos observando.

Ela é tudo isso naturalmente, tanto imanente quanto transcendente. Ela pode até mesmo permanecer em silêncio para os que não crêem na sua existência. Ela nos fala dentro de nossas consciências através das formas que Lhe damos, pois, enquanto mistério, Ela não pode ser apreendida e classificada. Podemos apenas vivenciar a Sua Presença que se assemelha ao toque suave de uma bruma, nos acaricia e preenche com o encanto e a magia.

Independente da religião que alguém siga, conhecer a Deusa e suas histórias, entrar em contato com a Sacralidade do Feminino é fundamental para a saúde psíquica. Tanto homens quanto mulheres, somos masculinos e femininos, animus e anima. Se existe um aspecto masculino da Divindade, um Deus, existe certamente um aspecto feminino, a Deusa. E é disso que trata a Criação - as energias femininas e masculinas juntando-se para criar vida nova. Sem a mulher não pode existir vida nova. Sem a Sacralidade do Feminino não honramos a Vida!

Nesse momento histórico precisamos mais do que nunca da Deusa e dos valores que Ela traz: ecologia, solidariedade, feminismo e sacralidade do feminino, do corpo e do sexo, criatividade, tolerância, direitos individuais e coletivos, cooperação, beleza, harmonia, assertividade sadia, equilíbrio e tantos mais de que precisamos.

Para nós mulheres, principalmente, conhecer a Deusa e suas várias faces é fundamental, pois se os seres humanos foram criados à semelhança do Criador, e existe apenas um Deus masculino, à imagem de quem foram criadas as mulheres? Como as meninas podem aprender a ser mulheres sem a Deusa? Sem as histórias da Deusa que modelos temos para a construção de uma auto-imagem saudável? Os limitados papéis tradicionais? Esses já não nos servem mais!

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